Quando o Direito escrito não acompanha a vida real

  📌 Quando o Direito escrito não acompanha a vida real

Recentemente, atuei em uma assessoria jurídica que me fez refletir profundamente sobre o papel do advogado diante da realidade social brasileira.

Uma pessoa de baixa renda me procurou porque estava prestes a adquirir um imóvel localizado na periferia de São Paulo, integrante de um antigo programa habitacional do governo. O imóvel ainda está financiado, com saldo devedor aproximado de 90 meses, e permanece formalmente em nome do proprietário original.

Até aqui, nada fora do comum.

O ponto crítico é que esse contrato já havia sido cedido informalmente por meio de contratos particulares e procurações — com subestabelecimentos — quatro vezes. Essa pessoa seria a quinta adquirente.

Pelo sistema jurídico tradicional — aquele que aprendemos na faculdade, com transferência regular de propriedade, registro imobiliário e segurança formal — essa negociação seria inviável.

E digo mais: há cerca de 10 anos, eu provavelmente orientaria a não realizar esse negócio.

Mas o Direito não opera no vazio.

A realidade se impõe.

Essa pessoa já havia utilizado todas as suas economias para pagar o sinal, assumiu dívidas com os cedentes anteriores e também com a instituição governamental responsável pelo financiamento. A alternativa real não era “fazer ou não fazer”, mas seguir adiante sozinha ou com algum grau de orientação jurídica.

Diante disso, o caminho não foi “validar o risco”, mas reduzi-lo ao máximo, com transparência, cautela e plena ciência da cliente sobre os limites e perigos envolvidos.
Foram adotadas medidas jurídicas possíveis dentro desse contexto informal, justamente para evitar que ela ficasse completamente desassistida.

Esse caso reforçou algo que considero essencial: 👉 o advogado não pode ignorar a realidade social em nome de um ideal jurídico que, muitas vezes, não se concretiza na vida das pessoas.

Adaptar-se à realidade não significa banalizar o risco, nem estimular negócios inseguros. Significa compreender que, em muitos contextos, o papel do advogado é diminuir danos, orientar com responsabilidade e oferecer o mínimo de segurança jurídica possível.

Infelizmente, grande parte das pessoas que vivem essas situações não busca assessoria jurídica alguma — e isso torna tudo ainda mais perigoso.

Fica aqui a reflexão:

📚 O Direito precisa continuar sendo técnico, mas também humano.

⚖️ Segurança jurídica não é apenas formalidade — é acesso à orientação qualificada, mesmo em cenários imperfeitos.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Rubrica em todas as páginas de um contrato: são mesmo necessárias?

🏡 IPTU Indevido em Loteamentos: Você Paga Pelo Que Não Deve? Entenda Seus Direitos!

Conta bancária bloqueada: por que a impenhorabilidade de valores até 40 salários mínimos exige análise concreta do caso